Pretendemos aqui ajudar muitos dos treinadores a perceber quais as dominantes a ter em conta na organização do seu trabalho semanal. Antes de percebermos muitos destes conceitos teremos primeiro de saber quais os princípios, sub-princípios do jogo. O planeamento e a periodização do treino são dois aspectos indissociáveis que fazem parte de um conjunto de competências que se atribuem aos treinadores como fundamentais. Sem um planeamento bem definido, que passa não só pela organização dos planos de treino semanais (o microciclo, no seu conjunto) mas também pela definição de conteúdos e objectivos a longo prazo (a época desportiva), o trabalho é baseado apenas no presente ou seja, não se define para onde e como se quer caminhar. À parte destas questões é também óbvio e importante que os planeamentos devem ser flexíveis e feitos “a lápis”. Assim, o treinador não tem de estar preso a uma planificação rígida, deve sim avaliar de forma constante e sistemática o seu trabalho, optimizando, modificando (se necessário) e operacionalizando os processos, à procura do rendimento global da equipa.
A periodização convencional (autores como Matveiev) deixou de fazer sentido à luz do que se sabe hoje em dia, para os jogos desportivos colectivos, dada a sua complexidade e natureza acíclica. Assim, pouco se fala hoje de Macrociclos e Mesociclos e, dos fundamentos da periodização táctica (Vítor Frade), emerge o Microciclo como a única dominante estrutural na periodização do treino. Questões como a divisão em factores de rendimento – físicos, técnicos, tácticos e psicológicos – ou a pré-época como suporte da condição física para a temporada, esvanecem-se actualmente.
Assim, o princípio da especificidade assume-se como fundamental na planificação e, a perspectiva da complexidade (interacção de todos os factores), é base de todo o entendimento do jogo e do treino do mesmo.
Chegado a um cube, o treinador deve em primeiro lugar contextualizar-se com a realidade em causa, depois aparece a criação do Modelo de Jogo Adoptado, e consecutivamente e obrigatoriamente o Modelo de Treino. Os exercícios criados, vão então reflectir as ideias do treinador que, por seu lugar, estão implícitas no Modelo de Jogo. Assim, mais do que um treino integrado, temos um treino com carácter elevado de especificidade, um treino do “Jogo que se quer Jogar” (5 Momentos - Como Atacar, Como Defender, Como Efectuar a Transição Ataque/Defesa, Transição Defesa/Ataque e Esquemas tácticos). Para além disso não se podem descurar os aspectos estratégicos (especificidade de determinados jogos, esquemas tácticos, entre outros).
Antes de avançar no tema, queremos fazer uma distinção entre o planeamento de treino nos escalões sénior (e também juniores – escalão já muito vincado no que respeita ao rendimento) e na formação propriamente dita.
Na formação, existem diversos factores que devem ser considerados, como o crescimento e maturação, a aprendizagem das habilidades específicas e conteúdos tácticos e deve haver também respeito pelas fazes sensíveis. Existem outros factores interessantes como o paradoxo do princípio da reversibilidade, ou seja, o atleta jovem pode não baixar a sua performance por deixar de treinar determinado aspecto, porque está a “sofrer” largas modificações no seu organismo que, por palavras simples, o estão a tornar mais “forte” e “mais apto” à medida que cresce - principalmente na puberdade (mas isto são assuntos para outras “trivelas”).
No que respeita ao microciclo padrão (com uma ou duas competições semanais), existem diversas fontes que agrupam as componentes de treino de uma forma mais ou menos consensual: Domingo: Jogo; Segunda:Recuperação Psicomotora; Terça: Folga; Quarta: Força Específica; Quinta: Resistência Específica; Sexta: Velocidade Específica e Sábado: Aperfeiçoamento e Revisão Táctica.
Sendo estes factores de esforço importantes, não somos por vezes levados a olhar em demasia para as capacidades motoras no planeamento dando menos importância ao que realmente vamos querer treinar? Eu chamo a esses aspectos as componentes qualitativas do jogo (do nosso jogo – modelo de jogo adoptado), sendo que as capacidades motoras específicas são a base de sustentação óbvia para que seja possível realizá-las. Desta forma, em que aspectos do jogo está presente a força específica, não será nos duelos 1x1, nos espaços reduzidos? E a resistência, não será na circulação e posse de bola, na basculação defensiva? E a velocidade, no contra ataque, também nos duelos e na procura de criar roturas na defesa, nas compensações necessárias?
Figura 1 - O Microciclo
MJA = Modelo de Jogo Adoptado
Não queremos retirar a importância que estes aspectos merecem, até porque é impossível. Julgamos apenas que primeiro devemos pensar no nosso jogo, e depois adaptar as planificações tendo em conta esses aspectos. Desta forma, consideramos que o mais importante são as componentes qualitativas dominantes do treino que, de acordo com o modelo de jogo adoptado vão ser distribuídas pela semana de acordo com a sua base energética e de esforço - específico do futebolista. A intensidade, deve ser sempre máxima (relativa à sessão) e só assim se consegue uma concentração táctica absoluta desde o aquecimento até ao retorno à calma. A complexidade será o único factor que posso considerar mais ou menos elevado, pois na sessão de recuperação temos concerteza menos complexidade que numa sessão onde são abordados a maioria dos princípios do jogo.
Passamos a bola aos leitores !
Adaptado

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